Colaborando com esta iniciativa maravilhosa que tem a pretensão de ajudar a divulgar e preservar a memória da família e, portanto, de Bidico, sou obrigado a falar das boiadas e boiadeiros, personagens dos sertões, hoje rarefeitos, empurrados para o passado, que deixaram apenas a nostalgia de tempos outros em que homens, bois, mulas e cavalos interagiam com a natureza exuberante, enfrentando dificuldades às vezes insuperáveis, fazendo viagens que não raro ultrapassavam cem dias, tangendo uma boiada de mil reses, desde o coração do Mato Grosso (que ainda era um só) até São Paulo.
Bidico, sendo um deles, teve o privilégio de conviver com esses homens e viajar com eles, montado em lombo de burro, por muitos e marcantes dias. Suas lembranças são dos ermos, dos grandes espaços, das veredas e de longínquas paisagens, onde, montaria a passo e o gado preguiçosamente pastando e caminhando, ia proseando, sob a chuva da estação das águas ou sob a poeira levantada pelo gado na estação da seca. No pouso, onde a comitiva se arranchava, as conversas em volta da fogueira no rés do chão lembravam histórias de assombração, sacis, lobisomens, mulas sem cabeça que depois Bidico trazia para a varanda de sua chácara onde, deitado em sua rede armada com corrente e argolas dos adornos de sua montaria, as contava para adultos e crianças que ouviam com atenção redobrada, sempre satisfazendo nossa curiosidade em ouvir os casos daquelas vidas sertanejas. Foi assim que conhecemos a história da onça.
O gado exigia um acompanhamento regular, embora inconstante. Solto nos pastos, ficava desacostumado às pessoas, bravo e arisco além de estar a mercê de predadores como a onça pintada. Era preciso vigiá-lo, e os boiadeiros faziam isto todos os dias. Vigiavam áreas, retiros, pastos, mangas, grotas. Este serviço exigia a viagem até o pasto, às vezes viagens de léguas, e constantemente alguma rês carecia de trato, apartação ou medicação. Mas o gado pastava longe, na solta, alongado, e de vez em quando era preciso juntá-lo para apartação, castração, ferra ou venda. Era quando Bidico entrava em ação para levar a boiada da fazenda da compra para o entreposto próximo da capital e isso normalmente demandava meses de rotina perigosa.
Numa dessas viagens Bidico estava preocupado com o sumiço de algumas cabeças de gado. De tempo em tempo a contagem da boiada diminuía uma cabeça. Preocupado com o prejuízo que isso vinha causando ele aproveitou um parada da viagem devido ao mau tempo para investigar o que vinha ocorrendo. Chovia bastante dificultando seu trabalho, mas não foi surpresa para ele encontrar pegadas de onça na retaguarda da boiada. Precisava caçar a fera senão seu trabalho estaria comprometido. Protegido do aguaceiro pelo seu chapéu e sua capa e munido de sua cartucheira, Bidico adentrou a mata no encalço da onça pintada. Durante o trajeto, encontrou um galho fino, com três ramos partindo simetricamente de um só ponto. Cortou-o, pensando fazer com ele um estilingue para os filhos. Nessa ocasião a onça que estava de emboscada à margem do caminho, saltou sobre ele. Bidico jogou a forquilha de lado, sacou da cartucheira e atirou na onça. Apesar de ferido, o animal não se importou e saltou novamente sobre o homem. Este se desviou mais uma vez dela e lhe atirou uma segunda vez, mas a munição molhada falhou e o bote da onça parecia certeiro. Bidico num reflexo de defesa e coragem fechou seu punho e com toda sua força desfechou um murro pretendendo acertar o nariz da dita cuja. Quando se deu conta viu que a onça tinha engolido praticamente todo o seu braço. Não restando outra coisa a fazer Bidico agarrou, por dentro dela, o seu rabo e puxou-o virando a onça do lado do avesso!
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Gostaria de fazer dois comentários:
ResponderExcluir1) Muito bom descobrir mais sobre a história do tão comentado biso Bidico, que sempre foi imaginado por mim (já que não tive o gosto de conhecê-lo) como alguém de enorme coração e, por isso, tão querido pelos netos, filhos e nora. A história da onça, com certeza, é um clássico da família.
2) Pai, não sabia que voce escrevia tão bem!
Que delícía são essas revelações !!!!
ResponderExcluirbjks!!!
Pois é, concordo com Ana Cecília, nesta família há escritores escondidos...meudeusdocéu, Tasso, ficou ótimo!!!!Essas histórias....
ResponderExcluirbjs